Propósito transforma tarefas em contribuição: nasce do uso de talentos e valores para servir e gerar impacto positivo. Na hotelaria, esse significado está presente diariamente, precisa ser reconhecido, comunicado e vivido.

Artigo publicado originalmente no Hotelier News em fevereiro/2026.

A Psicologia Positiva é bastante clara em um ponto: ter propósito no trabalho não é luxo, é necessidade. Ele está diretamente ligado ao bem-estar, à sensação de realização e ao florescimento pessoal.

Entre 2010 e 2014, mergulhei em estudos para compreender melhor como funcionam as emoções humanas. Esse conhecimento era essencial para uma abordagem diferenciada de Atendimento ao Cliente que eu desenvolvia e aplicava em treinamentos. Foi nesse caminho que conheci a Psicologia Positiva e os trabalhos do Dr. Martin Seligman, considerado seu fundador.

Ali, pela primeira vez, vi o tema propósito ser tratado de forma prática, concreta e totalmente conectada ao mundo do trabalho. Não era algo abstrato ou filosófico e fazia muito sentido no dia a dia profissional. Desde então, o assunto ganhou força e virou tendência.

Um exemplo claro disso aparece na Pesquisa Gen Z & Millennial 2025 da Delloite: 9 em cada 10 pesquisados afirmaram que aceitariam ganhar menos para trabalhar em empresas cujos valores e propósito estivessem alinhados aos seus. Isso diz muita coisa.

Mas, afinal, o que é propósito?

Na Psicologia Positiva, propósito é essa intenção constante e significativa de buscar objetivos de longo prazo que vão além de nós mesmos. É sentir que aquilo que fazemos gera impacto positivo no mundo. É ter clareza de sentido, direção e significado; algo que orienta decisões, motiva escolhas e sustenta a gente nos momentos difíceis.

Propósito está profundamente ligado ao uso dos nossos talentos e valores pessoais. Ele é um dos pilares do bem-estar, representando o “M” de Meaning no modelo PERMA de Seligman. Em outras palavras: propósito combate a apatia, o desânimo e transforma a rotina em algo mais rico e vivo.

Sempre que falo sobre isso, me lembro da fábula dos três pedreiros.

Um viajante passa por uma construção e pergunta a três homens, separadamente, o que estão fazendo. O primeiro, cansado e irritado, responde:
“Não está vendo? Estou assentando tijolos.”

O segundo, com mais serenidade, diz:
“Estou construindo uma parede.”

Já o terceiro, com brilho nos olhos, responde com orgulho:
“Estou construindo uma catedral!”

A moral é simples e poderosa: o que diferencia um trabalho comum de um trabalho extraordinário não é o que se faz, mas como se enxerga o que se faz.

Quando falamos de propósito no trabalho, normalmente estamos falando de três elementos fundamentais:

  • Servir às pessoas
  • Ajudar os outros em suas necessidades
  • Sentir que existe realização, crescimento e melhoria

Esses elementos costumam estar ligados a valores como a criação de algo belo, a promoção do conhecimento, a coragem e o cuidado com o outro.

Basta pensar em profissões como professores, enfermeiros, médicos, bombeiros ou policiais. É praticamente impossível exercer essas atividades de forma plena sem propósito.

Elas já nascem conectadas a uma causa maior.

E é justamente aí que surge uma reflexão interessante: todos esses elementos também estão presentes na hotelaria. Ainda assim, por que essa profissão parece ter perdido tanto espaço entre os jovens, especialmente em uma geração tão orientada por causas e significado?

Será que não estamos conseguindo comunicar bem o verdadeiro sentido da profissão?
Ou será que as pesquisas sobre propósito no trabalho estão distantes da realidade prática?
Recentemente, assistindo ao filme O Grande Hotel Budapeste, me deparei com uma das definições mais simples e profundas da essência da hospitalidade. Em seus discursos noturnos, quase como rituais de treinamento, o personagem M. Gustave diz à sua equipe:

“A grosseria é uma expressão de medo. As pessoas temem não conseguir o que querem. As pessoas mais difíceis só precisam ser amadas, e então se abrirão como uma flor.”

Essa frase resume, com delicadeza, a alma da hospitalidade. Ela carrega todos os valores que falamos até aqui: serviço, empatia, coragem e propósito.

A hotelaria, no fundo, é uma profissão profundamente significativa. O propósito está ali, todos os dias, esperando apenas ser reconhecido.

Para encerrar, deixo a sugestão de dois filmes que ajudam a refletir ainda mais sobre o sentido do trabalho e da vida:

  • Viver (Living), drama britânico de 2022
  • Perfect Days (Dias Perfeitos), filme de 2023 dirigido por Wim Wenders

Ambos são convites sensíveis para repensarmos como vivemos e por que fazemos o que fazemos.