A hotelaria não é uma realidade única. O artigo mostra a importância de compreender cada contexto e valorizar a cultura, os recursos e a originalidade dos pequenos destinos, evitando a reprodução de modelos distantes de suas necessidades.
Artigo originalmente publicado no Hotelier News em junho/2025.
Em dezembro de 2023, tinha recém-chegado ao Recanto Maestro, na Quarta Colônia, onde fora contratado para implantar e coordenar o Curso de Hotelaria da AMF (Antônio Meneghetti Faculdade).
Você nunca ouviu falar da Quarta Colônia? Imagino, pois até aquela época eu também não.
O local é maravilhoso!
Fundada em 1877, a Quarta Colônia é uma região no meio do Estado do Rio Grande do Sul, próxima à Santa Maria. Foi o quarto núcleo de imigração italiana no Estado, razão do seu nome, ou seja, foi a quarta área de assentamento para imigrantes italianos no Estado.
Paisagens de tirar o fôlego numa região marcada pelo contraste entre extensas planícies aluviais e o início da Serra Geral, que no Rio Grande do Sul recebe o nome de Serra Gaúcha. De lá, as montanhas seguem em direção ao litoral, de onde vão para o norte, se tornando a conhecida Serra do Mar. Aliás, por essa razão Santa Maria foi chamada por muitos anos Santa Maria da Boca do Monte.
Numa característica típica desse tipo de geografia, vários afloramentos rochosos e corredeiras de água formando belas cachoeiras são comuns por lá. O destaque, em minha opinião, fica por conta do Cânion da Piruva.
Dada a sua singularidade geológica, a região foi reconhecida em 2023 como um Geoparque Mundial da UNESCO. Lá foram (e continuam sendo) encontrados fósseis de animais e plantas que viveram na região durante o Período Triássico (entre 252 e 201 milhões de anos atrás). Alguns deles são considerados os mais antigos já identificados no mundo. A visita ao CAPPA (Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica) em São João do Polêsine é imperdível.
Além disso, há ainda o patrimônio cultural e arquitetônico deixado pelos imigrantes italianos, outro ponto alto da região. O Distrito de Vale Vêneto é um bom ponto de partida para essa exploração.
Resumindo, o lugar é de um enorme potencial turístico, assim como outros tantos existentes pelo interior de todo Brasil.
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Pois bem, foi lá na Quarta Colônia, num final de tarde quente, depois de um dia de trabalho, que resolvi dar uma caminhada numa das várias estradas de chão que saem do campus da AMF.
De repente me deparei com uma cena interessante, típica do ambiente rural: um rapaz jovem, de aparência simples, lidando com uma vaca e um bezerro. Pelo que percebi ele estava tentando separar o bezerro de sua mãe. O entrevero era grande. Me aproximei com calma da cerca que me separava da cena e puxei papo, tomando o cuidado de não interferir demais na situação ou causar grandes distrações. Ele foi amistoso e me deu papo. Foi muito simpático. Acho que falamos sobre algo trivial, não me lembro bem o assunto, até que percebemos que não havíamos nos apresentado.
Ele tomou a dianteira, me disse seu nome e me falou que era morador da região, mais precisamente de uma casa que se via ao longe, mais abaixo na estrada. Eu então me apresentei, dizendo meu nome e que estava chegando à região para implantar o curso de hotelaria da AMF.
Foi então que ele me surpreendeu: “Vou ser seu aluno professor!” – me disse com um sorriso meio amarelo.
Levei um susto, porque a situação foi muito inesperada para mim. Na mesma hora me caíram várias fichas. Me dei conta de que talvez aquilo que vinha considerando em termos de abordagem do curso que estava montando precisava ser repensado.
Percebi que tinha esquecido de considerar até então o possível perfil inusitado dos meus futuros alunos.
Falando assim parece um erro grosseiro, mas fato é que nunca tinha me dado conta de que a hotelaria que eu conheço, que vivi e que estava disposto a ensinar, não é algo assim tão universal.
Isso ficou ainda mais evidente quando depois de alguns dias descobri que aquele meu aluno também era o Gerente Geral de uma pequena e bela pousada da região.
Aquela situação mexeu muito comigo, porque desde então passei a me dar conta de como percebemos o mundo a partir quase que exclusivamente da nossa experiência pessoal, da nossa realidade.
Lembro-me que quando fui à China em 2007 já tinha tido um insight importante sobre isso, pois fui exposto a um mundo completamente diferente do meu, mas ainda assim não fora o suficiente para introjetar esse novo paradigma a ponto de aplicá-lo em outros contextos como, por exemplo, o daquela situação.
Não cheguei a rever a matriz do curso, mas sem dúvida alguma ajustei muito a minha forma de abordar os conteúdos previstos. Afinal era preciso encontrar um formato que permitisse a melhor conexão entre esses mundos tão diferentes. A hotelaria dos grandes centros e dos grandes destinos turísticos, que basicamente define tudo o que se dá destaque e se aborda sobre a atividade, é muito diferente da hotelaria dos pequenos vilarejos, dos destinos distantes e lugares isolados. Não necessariamente me restringi às limitações da realidade daquela região, mas sem dúvida alguma passei a considerá-las com mais destaque na forma de revelar o mundo da hotelaria para meus alunos.
Foi um grande aprendizado e uma experiência fantástica!
Existem várias hotelarias dentro do universo global da atividade e é preciso considerar isso quando atuamos nesse contexto, se não, corremos o risco de perder a conexão com o que é verdadeiro e original, divulgando ideias, criando regras e padrões que correm um grande risco de serem descontextualizadas. Aliás, num mundo “cada vez menor” como o atual, o que mais precisamos é preservar e valorizar a originalidade de cada lugar.
Há que se ter o cuidado de saber para que hotelaria, para que hoteleiro se está dizendo algo, quando nos propusermos a fazê-lo. Franquias, estratégias de desenvolvimento, branding, aplicações de tecnologia e IA, enfim, há uma enormidade de temas e buzzwords (para dar uma de hoteleiro cosmopolita) que muitas vezes abordamos como unanimidades e que não fazem o menor sentido em muitos rincões por esse Brasil, e por esse mundo afora.
E um grande desafio, eu diria, é saber que temas são os mais relevantes para esses profissionais que bravamente praticam a hospitalidade numa hotelaria isolada e sem grandes recursos. E olha que não são poucos, pois mais de 80% da hotelaria nacional, para ser mais exato, 8.853 hotéis são independentes e desses, quase a metade não tem mais do que 20 apartamentos.
Mais ainda, esses profissionais precisam ser orientados a melhor explorar e valorizar o que é próprio da sua região, da sua cultura e da sua comunidade, pois muitas vezes o que vi nesses locais foram produtos e serviços feitos a partir de cópias e releituras ruins do que se tem nos grandes centros, quando na maioria das vezes as soluções e os produtos e elementos locais são muito mais interessantes.

