Vivências formativas, como o esporte coletivo, ajudam a construir identidade, liderança e resiliência. Quando respeitam talentos e escolhas individuais, seus aprendizados acompanham toda a vida pessoal e profissional.

Artigo publicado originalmente em novembro/2024.

Pois é, o goleiro aí da foto sou eu. Isso foi em um Grenal de Juniores, em 1984, no saudoso Estádio Olímpico.

Tive uma curta, porém marcante, experiência como jogador de futebol entre 1981 e 1984, dos meus 15 aos 18 anos. Comecei nos Juvenis do Grêmio, em Porto Alegre, onde joguei por quase dois anos. Na sequência, tive uma oportunidade ímpar de jogar a metade final da temporada 82/83 nos Juvenis e Juniores do Benfica, em Portugal. No ano seguinte, já de volta ao Brasil, tive minha melhor temporada novamente no Grêmio. Fiz parte do plantel dos profissionais em dois jogos e fui convocado para a Seleção Gaúcha de Juniores, sendo infelizmente cortado ao final da fase preparatória.

Por que estou falando sobre isso aqui? Bem, pode até parecer autopromoção é claro, mas na verdade é para contar sobre o quanto esse tipo de experiência na adolescência pode marcar a nossa identidade e a nossa forma de encarar os desafios da vida pessoal e profissional.

...E antes que me perguntem por que “larguei o futebol”, vale dizer que foi exclusivamente minha a decisão de não seguir a carreira. E não foi porque achasse que não teria chance, mas sim por uma questão de escolha de vida. Eu gostava e gosto muito de futebol, mas não era uma atividade que me preenchia ou que me realizasse plenamente. Eu queria muito estudar, fazer uma faculdade, e isso se mostrou impossível de realizar em conjunto com a carreira futebolística. Aliás, eu voltei de Portugal justamente por isso. Fui para lá na intenção de também cursar Hotelaria, mas infelizmente meu planejamento não pôde se concretizar. Afinal, como fui colocado para atuar em duas categorias simultaneamente, tinha que treinar muitas vezes em dois períodos diários, o que tornava quase impossível conjugar com a faculdade.

Mas voltando a questão do poder da influência que essas experiências têm na nossa formação, quero falar sobre quanto o meu perfil de Gestor se baseia na minha passagem pelo futebol, ou melhor, em toda a minha experiência esportiva na infância e adolescência. Também joguei voleibol e handebol pelas equipes das escolas nas quais estudei no ensino básico e médio, e ainda pratiquei remo, por alguns meses, no tradicional Grêmio Náutico União, já na fase adolescente, em conjunto com o futebol, na minha primeira passagem pelo Grêmio. Não por coincidência, todas são modalidades esportivas coletivas, pois eu sempre preferi atuar em equipes ao invés de modalidades individuais.  A dinâmica das equipes sempre exerceu uma atração especial em mim e eu acredito que vem daí o meu estilo de atuação como Gestor, sempre focado nas equipes.

Mas não é só a dinâmica da atuação em equipe (o que não é pouco) que o esporte coletivo pode nos ensinar. Há também elementos como a competitividade, o foco no resultado, a ética, a resiliência, a automotivação, a prática do treinamento e da preparação intensa e integral, e a importância da estratégia e seu desdobramento na tática da atuação diária, só para citar alguns.

Acho que não consigo assumir um desafio se em primeiro lugar não tiver ou puder deixar clara a estratégia do negócio. Não dá para mobilizar adequadamente a equipe se não tivermos claramente definidos “os objetivos maiores do clube e da temporada”, pois é só a partir disso que se pode traçar as “táticas de jogo, rodada a rodada” (fazendo analogias). Gosto de pensar que as pessoas trabalham e se mobilizam para e pela estratégia, e não para o seu gestor. O gestor é o agente de promoção e facilitação da estratégia. A estratégia não só mobiliza e alinha os colaboradores, como faz isso com todos os stakeholders do negócio.

Não consigo gerir o dia a dia das operações sem ter um “placar”, um resultado objetivo do “jogo”. A equipe, a começar por mim, precisa saber se estamos “ganhando, empatando ou perdendo”. Sem isso, o desempenho fica solto e a tática perde sentido. A divulgação regular e frequente dos resultados, através dos indicadores, é fundamental para garantir essa modulação no desempenho da equipe.

Muito treinamento (fui goleiro, não esqueçam disso); feedback regular, franco e objetivo, baseado no resultado e focado na melhoria do desempenho; o enfrentamento natural e despersonificado dos erros e dos reveses (que no esporte são as derrotas) como uma oportunidade de aprendizado e melhoria; a criação de um espírito de equipe, baseado no orgulho de pertencer (efeito camiseta), na noção clara de atuação coletiva e na atitude competitiva e combativa; e por último, o reconhecimento e a comemoração intensa das vitórias, em primeiro lugar do coletivo e, só depois, dos desempenhos individuais excepcionais. Todas essas práticas eu certamente trago comigo da minha experiência no esporte de alto rendimento.

Sou muito grato e feliz por ter tido essa experiência na minha adolescência, pois certamente a maior parte das minhas conquistas profissionais na fase adulta são fruto do exercício dessas competências, dessas características.

Claro que não é só o esporte que tem essa propriedade. As outras atividades que eu mesmo experimentei ao longo da minha infância e adolescência me mostraram isso, mas eu diria que o esporte é, sem dúvida, uma das atividades mais ricas do ponto de vista da geração de experiências formativas.

Assim sendo, e aqui falando um pouco como pai e outro pouco como professor, vou me atrever a dar um conselho para quem lida com a educação de jovens: invista, provoque, promova experiências diferentes com poder formativo, pois os desafios que você proverá a seus filhos ou alunos, em maior ou menor grau, vão moldá-los para o resto de suas vidas. E, é claro, faça isso respeitando as características pessoais e preferências individuais de cada um deles, pois em última análise, seu maior proveito se deverá muito ao alinhamento que essas vivências tiverem com os talentos deles.