Música e entretenimento transformam emoções, conectam hóspedes ao destino e tornam a hospedagem memorável. O artigo mostra como esses elementos fortalecem a experiência, ampliam a reputação dos hotéis e geram novas oportunidades de negócio.

Artigo publicado originalmente em janeiro/2025.

A música dispensa explicações, mas talvez o termo entretenimento mereça uma definição. Então vamos lá: entretenimento é todo evento, ação ou atividade que tem por objetivo, em primeiro lugar, captar o interesse de uma audiência, para na sequência distraí-la, agradá-la, alegrá-la, deleitá-la, proporcionar a ela bem-estar.

Nasci na época dos discos de vinil e das fitas K-7 (cassete). As imagens dos meus grupos de Rock preferidos, tais como Led Zeppelin, Jethro Tull, Yes e outros tantos, eram uma raridade. Shows deles então...! A apresentação do Genesis em Porto Alegre, minha cidade natal, em 1977, por exemplo, foi como se uma nave espacial tivesse pousado na cidade. Que evento extraordinário!

Aquele “universo musical” nos conectava com um mundo diferente, no qual nos idealizávamos e moldávamos nossa identidade. A música nos ajudava a nos descobrir e a descobrirmos o mundo.

Mais tarde, já na faculdade, um colega me apresentou a música de Pat Metheny, meu músico favorito até hoje. Com Pat veio também Larry Carlton, Lee Ritenour, Dave Grusin e outros tantos do Fusion. Muita música boa!

Naturalmente me aproximei do Jazz, o gênero musical que me roubou a atenção de forma quase exclusiva por mais de duas décadas. Do mundo do Jazz tive a chance de assistir ao vivo grandes artistas como Miles Davis, Dizzy Gillespie, George Benson, Carlos Santana, Modern Jazz Quartet, David Sanborn e outros tantos numa edição inesquecível do North Sea Jazz Festival, naquele ano (1988) ainda em Haia (atualmente ocorre em Roterdam), na Holanda. Estava por lá cursando minha especialização em Gestão da Hospitalidade, na The Hague Hotel School. Sem dúvida aquele foi o maior evento musical que já tive a oportunidade de assistir. Não pelo tamanho do público, mas pelo número e a qualidade das atrações (Clique aqui e veja a lineup sensacional daquela edição do festival).

Alguns anos mais tarde, em 1992, numa edição do saudoso Free Jazz Festival em São Paulo assisti também ao genial Wayne Shorter, falecido recentemente, numa apresentação intitulada Tributo a Miles Davis, onde ele se apresentou junto a Herbie Hancock, Ron Carter, Tony Williams e Wallace Roney. Que timaço!

Ah! E é claro que o Blues sempre esteve presente na minha vida, com destaque para o seu Rei, B.B. King, que esse ano completa uma década de falecimento, e que tive a chance de assistir duas vezes no palco, uma delas no mesmo North Sea Jazz Festival em 1988, e outra em Campinas – sim, você não leu mal, em Campinas – em 1995 ou 96, não tenho bem certeza.

E pra finalizar esse brevíssimo relato da minha experiência e do meu gosto musical, pois esse não é o propósito desse artigo, quero ainda dizer que de alguns anos pra cá venho me descobrindo de uma forma diferente, escutando muita música Barroca, a começar pelo inigualável João Sebastião Bach (brincadeirinha, só pra nos aproximar do personagem), passando pelo Jorge Frederico Händel (bis), além de músicas regionais de diferentes culturas, como é o caso da música de Dhafer Youssef e da Ensemble Ibn Arab.

O fato é que a música sempre ocupou um papel de destaque na minha vida. Até me aventurei a tocar bateria! Eu não vivo sem música. Ela está sempre “no ar”. Aliás, nesse momento em específico estou escutando o Concerto para piano nº 21 em dó maior, K. 467, de Wolfgang Amadeus Mozart, em meio à minha playlist de Favoritos do Spotify, essa maravilha criada pelos suecos Daniel Ek e Martin Lorentzon, em 2006.

Aliás, falando em Spotify, isso me fez lembrar que em 2004 implantamos a primeira rádio indoor em um hotel no Brasil, num projeto pioneiro de Rádio Corporativa com a Broadnews. Esse artigo da ClienteSA relata o case.

A música é o maior e mais eficaz regulador de emoções que eu conheço. E se a hotelaria é experiência, e experiência é essencialmente emoção, a música é sem dúvida um ingrediente indispensável da hotelaria.

A música modula o nosso humor, ajuda no nosso desempenho cognitivo e é capaz de nos transportar imediatamente para o lugar, para o tempo e para a cultura da qual ela é originária ou representa, ou seja, ela pode nos conectar também com o destino, outro componente importante do fenômeno turístico e da hospitalidade.

Não é à toa que sempre dei valor e destaque especial à música em todos os hotéis em que trabalhei.

Um bom exemplo disso, em Olinda, diga-se de passagem, um dos locais mais musicais em que já vivi, no saudoso Hotel Quatro Rodas chegamos a ter treze músicos empregados em regime CLT no quadro de funcionários do hotel: um sexteto de pagode que circulava pelo nosso bar e área das piscinas, o quarteto de jazz que animava o piano bar e que contava com o saudoso e talentosíssimo Jehova da Gaita, e os Seresteiros da Mauricéia, com destaque para Cicinho e seu cavaquinho e Waldir, o Cantor Cadillac, que alegrava os jantares no Villa D’Olinda, o restaurante principal do hotel. E olha que ainda tínhamos a Boite Sete Colinas na cobertura do prédio, que volta e meia sediava uma ou outra apresentação de música ao vivo.

Acha que era só isso?

Não, nós íamos além. O hotel tinha uma programação semanal de shows que ainda incluíam além da música, a dança, com o show folclórico do Balé Popular do Recife, depois substituído pelo Balé Brincantes, todas as quartas-feiras à noite, na área das piscinas, acompanhado por um farto buffet de comidas típicas pernambucanas. Às quintas-feiras apresentávamos um show de samba, com a Escola Gigantes do Samba de Recife e aos domingos, o espetáculo da Cultura Afro Brasileira com o Balé de Arte Negra de Pernambuco. Ambos ocorriam também na área das piscinas, no horário do jantar, acompanhados por buffets de comidas típicas dentro das temáticas dos shows.

E tínhamos ainda as nossas Sextas-Super, jantares temáticos realizados todas as sextas-feiras, obviamente, que ocorriam no restaurante principal do hotel, nos quais, além de um buffet em uma cenografia especial, o ponto alto da programação ficava por conta dos garçons, que encenavam esquetes juntamente com a equipe de lazer do hotel, em meio ao serviço.

Tudo isso exigia, é claro, pessoal, estrutura e instalações especiais, muita expertise e organização, pois envolvia cenografia, sonorização, iluminação e muito ensaio nas apresentações em que tínhamos nosso próprio pessoal atuando.

Não era à toa que recebíamos turistas e hóspedes de hotéis distantes de Recife que vinham ao nosso hotel apenas para desfrutar dessa programação.

E para os nossos hóspedes, sem dúvida, isso constituía uma experiência extraordinária e única de hospedagem.

Lembro-me de que os diretores da Accor, que adquiriu a rede Quatro Rodas em 1989, se assustaram com aquilo tudo, pois não conheciam essa abordagem de hotelaria. Na verdade, acho que tiveram uma certa dificuldade inicialmente de entender o que aquilo significava. Fato é que naquela época ainda não existiam os atuais Resorts, mas apenas os chamados Hotéis de Lazer, categoria da qual os hotéis Quatro Rodas (Olinda, Salvador e São Luiz) eram, sem dúvida, por tudo isso, uma das referências.

A reputação dos hotéis era tão grande que lotávamos com grande antecedência no período do Réveillon e Carnaval, em função dos grandes bailes que organizávamos nessas datas, festas à beira da piscina para até 2.000 pessoas. Eram festas muito bonitas com comida e bebida farta, riquíssima decoração e excelentes atrações musicais. Alceu Valença, por exemplo, animou um dos últimos Bailes Dourados (Carnaval) do hotel. Festas de grande produção, que ficaram sem dúvida marcadas para sempre na memória daqueles que as desfrutaram.

Eu teria ainda muito mais histórias para contar da minha época na Acadèmie Accor, onde realizamos espetáculos envolvendo também teatro, encenados no nosso auditório principal, ou em Sauípe, onde realizamos grandes shows com Gal Costa, Ivete Sangalo e Jorge Bem Jor, ou o inesquecível Réveillon de Sol a Sol (do pôr ao nascer do sol), que começou com um coquetel concerto à beira da piscina, onde foram executadas obras clássicas por uma orquestra de 12 violonistas especialmente criada para o evento, mas aí o artigo ficaria longo demais. Além do que, o tema está devidamente colocado, ou seja, a música e o entretenimento são componentes indispensáveis da boa hotelaria.

Antes de concluir, porém, acho que vale destacar também o quanto o segmento da música e do entretenimento em geral são grandes geradores de negócios para a hotelaria. Basta ver os números da recente edição de 40 anos do Rock in Rio, onde cerca de 46% das 730 mil pessoas que foram ao evento vieram de fora do Estado do Rio de Janeiro, oriundos de 31 países diferentes. O evento movimentou R$2,9 bilhões na economia da cidade.

O impacto econômico dos shows internacionais para o Brasil tem sido bilionário, portanto esse é um mercado que só tende a crescer.

E nós, como hoteleiros, ficamos ainda mais felizes, pois em meio a essa experiência toda ainda temos a oportunidade de hospedar e conhecer um pouco mais da vida e do comportamento dos grandes nomes do showbiz. Da minha parte, até aqui, eu diria que os personagens mais marcantes que tive a chance de acolher foram Ray Charles, o Rei Roberto Carlos, Astor Piazzolla e Antônio Gades.

E você? Se for hoteleiro, deixa aqui nos comentários quem foram os grandes personagens do showbiz que você já teve o prazer de hospedar.